Reportagem especial

A vida nas margens do Rio São Francisco: uma história de resistência

Dona Maria tem 72 anos e nunca morou a mais de cinquenta metros do Rio São Francisco. Nasceu numa pequena comunidade ribeirinha no norte de Minas Gerais, criou seis filhos às margens do rio, e hoje vê, com uma mistura de tristeza e teimosia, o nível da água baixar a cada ano. "O rio está cansado", ela diz, olhando para a margem que, quando era criança, ficava a uns vinte metros de onde estamos sentados. Hoje, está a quase cem.

A história de Dona Maria é a história de milhares de famílias que vivem ao longo dos 2.700 quilômetros do Velho Chico, como o rio é carinhosamente chamado. Um rio que atravessa cinco estados — Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe — e que foi, por séculos, a espinha dorsal do desenvolvimento do interior nordestino e norte-mineiro.

"O rio está cansado. Mas a gente não pode cansar junto com ele. A gente tem que continuar." — Dona Maria, 72 anos, ribeirinha

O que os dados mostram

Os dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico e da Agência Nacional de Águas confirmam o que Dona Maria percebe na pele: o volume de água do São Francisco caiu de forma consistente nas últimas décadas. A combinação de desmatamento nas cabeceiras, mudanças nos padrões de chuva associadas às mudanças climáticas, e o uso intensivo da água para irrigação agrícola criou uma pressão sobre o rio que seus ecossistemas têm dificuldade de absorver.

A transposição do Rio São Francisco, obra que levou décadas de debate e que foi concluída em etapas ao longo dos anos 2010 e 2020, trouxe água para regiões do semiárido que antes dependiam exclusivamente das chuvas. Mas também gerou controvérsias sobre o impacto no volume do próprio rio e sobre a distribuição dos benefícios entre os diferentes estados.

As comunidades que resistem

Ao longo da reportagem, visitamos seis comunidades ribeirinhas em três estados diferentes. O que encontramos foi uma mistura de adaptação criativa e resistência teimosa. Pescadores que mudaram suas técnicas para lidar com um rio mais raso e com menos peixes. Agricultores que experimentam com culturas mais resistentes à seca. Mulheres que organizaram cooperativas de artesanato para complementar a renda quando a pesca falha.

Há também histórias de perda. Comunidades que foram parcialmente deslocadas pela construção de barragens. Jovens que foram para as cidades e não voltaram. Saberes tradicionais sobre o rio — sobre seus ciclos, seus peixes, suas plantas medicinais — que estão se perdendo com as gerações mais velhas.

O que o futuro reserva

Os cientistas que estudam o São Francisco são cautelosamente otimistas sobre a possibilidade de recuperação do rio, mas enfatizam que ela depende de ações coordenadas em múltiplas frentes: reflorestamento das margens e das cabeceiras, gestão mais eficiente do uso da água para irrigação, e políticas de adaptação para as comunidades ribeirinhas que vão continuar sendo afetadas pelas mudanças climáticas independentemente do que for feito.

Dona Maria não sabe de modelos climáticos nem de políticas públicas. Mas sabe que o rio que ela conheceu quando criança não é mais o mesmo. E sabe que, se quiser que seus netos conheçam alguma versão desse rio, algo precisa mudar. "A gente tem que cuidar do que é nosso", ela diz. "Senão, quando a gente perceber, não vai ter mais nada para cuidar."

Cláudia Mendonça Repórter especializada em meio ambiente e comunidades tradicionais. Percorreu o Rio São Francisco por três semanas para esta reportagem.