Beatriz Carvalho tinha 28 anos quando recusou uma proposta de emprego em uma clínica particular em São Paulo para ir trabalhar em Caracol, município de 12 mil habitantes no sudoeste do Piauí. Seus colegas de faculdade acharam que ela tinha enlouquecido. Seus pais ficaram preocupados. Ela foi assim mesmo.
Isso foi há seis anos. Hoje, a Dra. Beatriz — como todo mundo em Caracol a chama — é a única médica clínica geral do município. Atende em média 40 pacientes por dia, faz partos quando necessário, trata desde hipertensão até picadas de cobra, e conhece pelo nome praticamente todos os moradores que passam pelo posto de saúde.
"Eu cresci ouvindo que medicina era para quem queria ganhar dinheiro", ela conta, sentada no consultório do posto de saúde municipal, entre uma consulta e outra. "Mas quando eu estava na faculdade, fiz um estágio no interior do Nordeste e percebi que era lá que a medicina fazia diferença de verdade. Nas cidades grandes, tem médico sobrando. Aqui, eu sou a diferença entre alguém ter acesso a cuidados básicos ou não."
A decisão não foi fácil. O salário é menor do que ela ganharia em São Paulo. A infraestrutura do posto é limitada — faltam equipamentos, às vezes faltam medicamentos básicos. A internet é lenta. Há dias em que ela se sente isolada do mundo.
Mas há também o que ela não esperava encontrar. Uma comunidade que a recebeu com uma generosidade que ainda a surpreende. Pacientes que chegam com presentes — uma galinha, um quilo de feijão, um pote de mel — porque não têm dinheiro para pagar, mas querem agradecer de alguma forma. Crianças que a reconhecem na rua e correm para abraçá-la.
"Tem dias difíceis", ela admite. "Dias em que eu me pergunto se fiz a escolha certa. Mas aí vem um paciente que eu acompanho há anos, que melhorou, que está bem, e eu lembro por que estou aqui."
A história da Dra. Beatriz é bonita. Mas ela também ilustra um problema sério: o Brasil depende de exceções para que municípios pequenos e remotos tenham acesso a cuidados médicos básicos. Não deveria ser assim. A distribuição de médicos pelo território brasileiro é profundamente desigual, e as políticas de incentivo para atrair profissionais de saúde para regiões carentes têm alcance limitado.
Enquanto esse problema estrutural não for resolvido, municípios como Caracol vão continuar dependendo de pessoas como Beatriz Carvalho — que, por sorte ou por vocação, escolheram o sertão.